Minha Homenagem a Stephen King ou Insônia da madrugada.

Um cowboy. O Cowboy possuía um chapéu e um sobretudo, ambos de couro. Estava em um deserto, mas não de areia, com arbustos esparsos. Em sua frente uma pequena capela, feita inteira de madeira, com quatro ou cinco degraus na sua entrada.

O Cowboy, ou vaqueiro, como preferir V.S. entra na capela. Há 16 bancos de madeira dentro da capela, em duas fileiras de oito, formando um corredor no meio. O que se observava no palanque onde deveria falar o pastor ou reverendo ou padre, o cowboy não saberia ao certo, eram 5 corpos, todos, obviamente mortos. Viam-se dois casais que, aparentemente, morreram abraçados e um homem solitário. Devido ao calor e falta de umidade do deserto, os corpos haviam sido mumificados. A pele havia se transformado num couro de carne seca. As faces estavam conservadas, exceto, obviamente, pelos narizes e olhos. Podia-se ver que o homem solitário era já um senhor de idade, pois possuía uma longa barba branca. Um observador com atenção veria formigas entrando e saindo das cavidades dos corpos. Ao fundo, na parede, havia uma cruz de madeira, mas sem a comum imagem de um homem agoniando e morrendo pelos pecados de pessoas que ele nunca conheceu. Havia apenas a cruz. Sentado no primeiro banco, à direita, um homem, com cabelos longos e compridos, chegando a altura do ombro. Seus cabelos, diga-se de passagem, muito bem cuidados.

Nada disso chamou mais a atenção de nosso vaqueiro, caro leitor, do que a figura totalmente destoante de uma garotinha, de uns 4 ou 5 anos, com um vestido rosa, bochechas ainda vermelhas e capelos cacheados e loiros, chorando agachada no canto direito da capela. O cowboy sabia quem era, mas não conseguia lembrar ao certo quem.

Antes que pudesse se concentrar mais em lembrar-se quem era a garotinha, o cowboy piscou os olhos e viu-se defronte à capela novamente, no exato local onde essa narrativa começou. Tudo estaria igual se não fosse por uma estranha figura no telhado da capela. Um homem com uma longa cartola negra. Um homem todo vestido de preto, com inclusive luvas negras. Era um homem horrivelmente magro, anoréxico e apoiava sua mão esquerda em uma pá. O cowboy sentiu suas pernas ficarem moles e caiu de joelhos. Na sua frente haviam agora duas grandes tabuas de pedra, com escritos em uma língua antiga que o nosso vaqueiro não conseguia compreender.

Bem, sabe aquelas vezes, em que uma coisa ruim acontece e o primeiro instinto do cérebro humano é a negação, até que finalmente aceitamos o que nossa mente gostaria de continuar imaginando ser apenas uma possibilidade? Pois bem, esse era um desses momentos. O cowboy/vaqueiro percebeu, ou melhor, aceitou duas condições. Ele descobrirá todas as respostas e todo o conhecimento depois que entrasse naquela capela de madeira. Ele não sairá de lá vivo. São duas verdades da qual ele não poderia escapar. Finalmente tinha aceitado isso. Ele se levanta, limpa os joelhos da poeira e logo sente um fel subindo em sua garganta. Cospe. Tira seus dois revólveres (a final de contas, que cowboy não carrega armas?) dos seus respectivos coldres e coloca cada um em cima de uma das tabuas de pedras e ambos apontados para a capela. Passa por cima das tabuas, sem, no entanto, pisar em cima delas.

Nesse momento, pode ver claramente a face do coveiro. Sua pele parecia algo como uma casca de arvores de tão ressecada e dura.Assim como os corpos, não possuía nem nariz e nem olhos. Mas havia aberto sua boca como numa gostosa gargalhada. Algo seria sinistro, se tivesse emitido algum som, mas o cowboy não podia ouvir nada.

Subiu os degraus, entrou na capela. Tirou seu chapéu como manda e a etiqueta e o deixou cair no chão. Fez o sinal da cruz com a água benta que ali estava. “Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto, sicut erat in principio, et nunc, et semper, etin saecula saeculorum. Amen”. Não podia mais ouvir o choro da criança. Nesse momento, Jesus se levantou do primeiro banco, virou-se em direção do homem, com os abraços abertos dizendo:

_ Vem a mim, meu filho.

O cowboy foi ao encontro de seu criador.

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